sábado, 4 de outubro de 2008

COMO APRENDER COM A CORRUPÇÃO





Vicente Martins


Em sala de aula, um aluno, durante a elaboração de uma redação escreve “corrupssão”; um outro, “currupição”, e assim vai, em vez da forma escorreita “corrupção”.


Para mim, uma palavra rotineira, ouvida e lida na mídia a todo instante. Mas, para minha surpresa, ao perguntar sobre o significado da palavra corrupção, muitos alunos me dizem desconhecer seu sentido, seu emprego. Descubro, nesse momento, que há muito a falar sobre corrupção além da forma lingüística, além da ortografia. Sei que é aqui que uma aula de gramática deve ir além do certo e do errado e ser direcionada para a formação de valores.


Corrupção, como fenômeno da Política, é tão antigo como a própria origem da palavra, que nos remete à forma latina “corruptìo,ónis , corrupção, deterioração''. Como modo de influenciar as decisões políticas, a corrupção é hoje um fator de desagregação dos sistemas políticos, particularmente os democráticos. Eis a sua face iníqua. Mas, mesmo na Política, terá tido a corrupção, na nossa história, uma face virtuosa? E, em outros campos das Ciências Humanas, qual o valor da corrupção?


Com o dicionário nas mãos, o do Houaiss, mostro ao educando que a palavra corrupção surgiu, em documento escrito, no ano de 1344, portanto, século XIV. Entre outras acepções, quer dizer: a) ato ou efeito de subornar uma ou mais pessoas em causa própria ou alheia, ger. com oferecimento de dinheiro; b) emprego, por parte de grupo de pessoas de serviço público e/ou particular, de meios ilegais para, em benefício próprio, apropriar-se de informações privilegiadas, geralmente, acarretando crime de lesa-pátria e c) juridicamente, refere-se à disposição apresentada por funcionário público de agir em interesse próprio ou de outrem, não cumprindo com suas funções


Na Política, a corrupção é eticamente deplorável quando influencia decisões públicas ou interfere parcialmente na condução dos negócios públicos. Assim, os cidadãos, hoje, não toleram as atitudes corruptas que venham de um deputado, vereador ou funcionário público. Reagimos, impiedosamente, às influências ilícitas ou ilegais que visem atender a interesses de corruptores, sejam de origem econômica ou partidária. A proliferação de CPIs, no Congresso Nacional, atestam bem a assertiva acima.


Em termos políticos, ora a corrupção esteve historicamente ligada à idéia de legalidade ora à moralidade. Só com a evolução do Estado Moderno, a corrupção passou a ser considerada em termos de moralidade; antes, somente em termos de legalidade, isto é, corrupto era todo aquele que quebrava as normas jurídicas vigentes.


A maior prova da afirmação acima está no fato de o Direito se ocupar de coagir a peita, o nepotismo e o peculato; do contrário, a corrupção seria tão banalizada como trivial é ter uma empregada que executa serviços domésticos em nosso lar. No dia em que o Estado coibir o serviço doméstico, tê-lo é cometer de alguma forma a corrupção. Assim, para a Política, passamos a distinguir três tipos de corrupção: a peita, o nepotismo e o peculato.


Nos regimes monárquicos, a peita era apenas um pacto realizado entre plebe e fidalgos. A peita era tributo pago pelo povo aos nobres. Hoje, na relação entre Estados e União, no tocante ao sistema tributário, não persistem os resquícios da peita medieval?


O nepotismo nem sempre foi visto como um vício prejudicial às sociedades política e civil. O Estado não inventou o nepotismo. A Igreja, instituição soberana na Idade Média, via no nepotismo apenas um princípio de autoridade. Assim, o nepotismo era apenas o gozo da autoridade que os sobrinhos e outros parentes do papa desfrutava na administração eclesiástica.


A partir do surgimento do Estado Democrático, o nepotismo se manifestou, na estrutura de poder, através da prática do favoritismo. As formas de favoritismo passaram a ser vistas como modos de discriminação e de proteção com parcialidade. As atitudes de favorecimento, mesmo em nome das alianças ou afinidades políticas ou de acolhimento da parentela em épocas de crise, são vistas agora como manifestações nefastas contra a Democracia.


O peculato, antes, apenas indicava que o gado era a base das fortunas das classes favorecidas. "Receber o boi", hoje, é expressão que indica corrupção. Em que pese todo o esforço de perseguir o ideal de um Estado Democrático de Direito, o peculato é uma das manifestações mais corriqueiras da corrupção na administração pública brasileira. Funcionários públicos, barnabés ou marajás, são constantemente denunciados pelos meios de comunicação de massa por usarem das facilidades que seus cargos proporcionam em proveito próprio ou alheio. E a corrupção não tem seu lado bom?


A despeito da carga negativa que a palavra nos sugere, por nos remeter à idéia de fenômeno de corrupção da moralidade pública, há uma outra face, a da Linguagem, que revela a corrupção como fenômeno resultante do processo de evolução das línguas modernas.


Estranho nos parece, a princípio, cogitar a possibilidade de encaramos a corrupção como um fator do bem. A palavra corrupção é também registrada na Lingüística, ciência da linguagem. É uma categoria importante na chamada Filologia. Esta, ramo da Lingüística que estuda as sociedades e civilizações antigas através de documentos e textos legados por elas, privilegiando a língua escrita e literária como fonte de estudos.


A corrupção trouxe transformações positivas para as línguas modernas. Como signo histórico, a corrupção foi de importância fundamental na evolução da língua portuguesa. Sem a corrupção do latim clássico, elitizado e gramatilizado, não desfrutaríamos de uma língua tão dinâmica, marcada por variações fonológicas, morfológicas, geográficas e históricas, que assinalam o alto grau de diversidade lingüística em nossos dias. Diríamos que o povo foi uma espécie de corruptor da língua clássica, amoldando-a a um sistema lingüístico mais flexível e analítico. Não há como negarmos, pois, a faceta virtuosa da corrupção em termos lingüísticos.


Não será, pois, nos nossos dias, o maior desafio dos que ensinam mostrar aos educandos que somos uma Democracia e que a corrupção, na Política, é um vício e não uma virtude? Doutra sorte, ensinar-lhes que, no campo da Linguagem, a corrupção é uma virtude e não vício?
Às vezes, uma boa lição, em sala de aula, começa pelo despertar da curiosidade pelos paradoxos entre Igreja e Estado, filosofia e vida, língua e poder.


Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará. E-mail: vicente.martins@uol.com,.br